A Tradição Milenar dos Tapetes de Arraiolos
No coração do Alentejo, a vila de Arraiolos preserva uma das mais emblemáticas expressões do artesanato português: os Tapetes de Arraiolos. Em uma região marcada por uma identidade cultural sólida e por práticas transmitidas ao longo de séculos, essa arte têxtil afirma o valor do trabalho manual em contraponto à produção industrial contemporânea. Cada peça representa não apenas um objeto decorativo, mas um patrimônio cultural que sintetiza técnica, história e pertencimento.

Origem e Influências Históricas
O chamado ponto de Arraiolos — também conhecido como ponto cruz oblíquo ou ponto de trança eslavo — possui raízes que remontam a mais de mil anos. A técnica tem origem atribuída a povos eslavos, influenciou bordados marroquinos e chegou à Península Ibérica há cerca de oito séculos. Em Portugal, os primeiros registros documentados da produção em Arraiolos datam de 1598, período marcado pela presença da comunidade muçulmana na região, responsável por transmitir conhecimentos técnicos que seriam posteriormente aprimorados por artesãos locais. A base estrutural do tapete é a tela de juta ou linho, totalmente recoberta por lã bordada manualmente.

Estilos, Técnica e Permanência
Ao longo dos séculos, os Tapetes de Arraiolos passaram por transformações estéticas sem perder sua essência técnica. Os exemplares mais antigos revelam influência direta dos tapetes persas, perceptível nos arabescos e nos padrões simétricos. Posteriormente, surgiram composições de caráter popular, com figuras humanas, animais e motivos regionais. Já em períodos recentes, destacam-se desenhos mais leves e estilizados, dialogando com propostas contemporâneas de decoração. Independentemente do estilo, mantêm-se a produção artesanal integral, o uso de lã pura de alta qualidade e um rigor técnico que assegura elevada durabilidade e resistência ao desgaste.


A estrutura base do tapete é feita de tela de juta ou linho totalmente recoberta por lã bordada à mão. Esse rigoroso trabalho manual valoriza o artesanato em contraponto à produção industrial moderna (Fotos: Turismo do Alentejo e Nelson Carvalheiro)
Arraiolos: Patrimônio Vivo e Experiência Cultural
Percorrer as ruas de pedra de Arraiolos é encontrar ateliês e lojas especializadas onde cada tapete é tratado como obra singular. Em maio, o evento “O Tapete está na Rua” transforma a vila em um museu a céu aberto, com peças expostas em fachadas, varandas e praças, acompanhadas de programação cultural que inclui música, exposições e gastronomia regional. O Centro Interpretativo do Tapete de Arraiolos, instalado no antigo Hospital da Misericórdia, na Praça da República, aprofunda o entendimento sobre a tradição, incluindo a antiga atividade de tinturaria local. Próximo dali, o Monumento à Tapeteira e o tapete desenhado em pedra reforçam o orgulho coletivo pela arte. A experiência se completa com a visita ao Castelo de Arraiolos, fortificação circular erguida no Monte de São Pedro, e com a hospedagem na Pousada de Arraiolos, instalada no Convento de Nossa Senhora da Conceição, do século XVI.
Exemplares antigos revelam uma forte influência dos tapetes persas através de arabescos e padrões perfeitamente simétricos. Essa estética sofisticada demonstra a riqueza das trocas culturais que formaram a identidade portuguesa (Fotos: Turismo do Alentejo)
Patrimônio Cultural Imaterial de Portugal
- A técnica dos Tapetes de Arraiolos foi inscrita, em 2021, no Inventário Nacional do Patrimônio Cultural Imaterial de Portugal.
- Um tapete de grandes dimensões pode levar meses — ou até mais de um ano — para ser concluído, dependendo da complexidade do desenho e do número de artesãs envolvidas.
- A lã utilizada é tradicionalmente tingida com pigmentos naturais, prática que, historicamente, incluía o uso de plantas regionais.
- O UNESCO reconhece o Alentejo por quatro títulos distintos, incluindo o Centro Histórico de Évora, o Cante Alentejano, a Dieta Mediterrânica e os Sítios de Arte Rupestre do Vale do Guadiana.
- Arraiolos possui cerca de 3.000 habitantes e integra o distrito de Évora, a aproximadamente 20 km da capital regional.

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Edição: Márcia Santos
Imagens: Nelson Carvalheiro; Turismo do Alentejo

















